Sempre fui quieto, na minha. Herança do meu pai que também é assim. Mas, engana-se quem pensa que eu não sou capaz de manter um diálogo caloroso. Sou sim. Sempre que me sinto à vontade, mostro-me comunicativo e bom de papo. Se domino o assunto, pode ter certeza que conversaremos por horas se preciso for. Se eu não domino, ouço com atenção e tomo notas mentais para posteriormente pesquisar e assim construir minhas opiniões.
E por falar em construir opiniões, preciso reconhecer, quando tenho uma opinião formada, custo a mudar de ideia. Não que eu não me abra para o novo, longe disso, sempre estou disponível para novas possibilidades e mais, gosto do que é novo, isso me estimula, me instiga, me impulsiona. Mas, sou de opiniões próprias e convicções idem. E isso não é de hoje, vem desde que eu "me conheço por gente".
Quando ingressei na pré escola ~em 1991 era assim que chamava a Educação Infantil~ comecei a mostrar para o mundo que eu tinha minha forma de pensar e isso era tão latente que acabava atraindo a atenção das pessoas, me fazendo por vezes ser o centro das atenções, o que me constrangia mas, defendia meu ponto de vista e assim ganhava amigos ou inimigos ~quase sempre amigos~.
Uma lembrança recorrente desse tempo era a forma que eu era tratado por meus colegas de classe. Todos os dias eu chegava em casa chorando pois, sempre me chamavam de "neguinho", "chocolate", "marronzinho". Eu odiava isso ~calma, não falarei de bullying, pelo menos não nessa crônica~ protestava, brigava, tentava argumentar mas, não tinha conversa, era assim que meus colegas me viam e era assim que eu era chamado por quase todos.
Um dia, conta a minha mãe, Dona Helena, que eu cheguei em casa e não chorei. Isso era incomum, haja vista eu era todos os dias alvejado pelos apelidos referindo-se ao tom da minha pele. Não chorei e nunca mais chorei ou me lamentei pelo meu tom de pele negra. Fiz uma descoberta em uma aula de Artes que mudou minha vida completamente.
Foi assim:
Dona Helena: - O que foi Guilherme? O que aconteceu que não está chorando hoje?
Guilherme: - Eu descobri uma coisa mãe. Descobri que eu não sou "pieto" nem "bianco", sou bege!
Essa frase foi motivo de risadas e muitos comentários. Minha mãe contou isso para todos. E, é claro, muitos passaram a me chamar de "Bege".
Hoje me lembro desse fato e sorrio.
Como pude ser tão criativo?
Me recusava a ser "pieto" mas, sabia que eu não era "bianco" então criei uma terceira e original opção, me defini como "bege".
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